terça-feira, 19 de outubro de 2010
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
FLIPIPA - 2010 - O Sebo Vermelho estará presente



Vários livros estão programados para serem lançados no festival. Destaque para o novo livro do poeta e ensaísta João Batista de Morais Neto : O VENENENO DO SILÊNCIO.
O Estande do Sebo Vermelho funcionará todos os dias.
Festival literário com sabor de mar
Maria Betânia Monteiro - repórter
Seguro de que a literatura é uma manifestação artística autônoma, o escritor e produtor cultural Dácio Galvão, através da Fundação Hélio Galvão e do projeto Nação Potiguar, vai reunir importantes nomes da literatura — de abrangência local à internacional — para juntos fazerem a segunda edição do Festival Literário de Pipa-FliPipa. Será de 18 e 20 de novembro, no trecho praiano mais agitado turisticamente e culturalmente do município de Tibau do Sul. Com patrocínio do Governo do Estado através das secretarias de Educação, Turismo e Sethas, e parcerias da região, como a prefeitura de Tibau do Sul e a Associação de donos de hoteis e restaurantes, o evento já está cem por cento fechado, segundo informou o curador geral. O escritor moçambicano Mia Couto, os brasileiros Raimundo Carrero, João Ubaldo Ribeiro, João Gilberto Noll, Geraldo Carneiro, Daniel Galera e o artista visual Rafael Coutinho, Frederico Pernambucano de Mello e Laurentino Gomes são os nomes já confirmados para o encontro. “Com o FLIPIPA estamos proporcionando um cenário capaz de modelar a consciência da população”, disse Dácio. Ao falar de modulação da consciência, ele se referiu ao fato de o festival não ser algo passageiro, que chega e vai, consome o espaço, as pessoas e se despede. Diferente disso, o Flipipa desembarcou na praia de Pipa o ano passado, plantou algumas sementes na população, através da parceria com projetos sociais e está voltando com novidades. Uma delas é o resultado da parceria entre o EducaPipa, a UFRN, a Editora Universitária e a Funpec. Juntas, as instituições desenvolvem o projeto “Livro-Arte” baseado em poemas inéditos de Dorian Gray Caldas.
Se no ano passado a oficina literária foi com o premiado escritor Raimundo Carrero, este ano o convidado é o escritor, jornalista e tradutor Daniel Galera. Durante as tardes do festival, os participantes estarão imersos no universo dos contos, aprendendo a diferenciar e construir textos a partir de vários estilos de narrativa. Aprenderão ainda a construir personagens, estruturar o tempo da narrativa, definir o clímax. Os autores trabalhados são Anton Tchekhov, Sérgio Sant´Anna, Luiz Vilela, Daniel Pellizzari, Paulo Scott. Tudo, claro, com um cuidado especial, já que o alvo são os estudantes.
Pipinha literária
Uma das novidades é a interação entre o quadrinista Luiz Elson Dantas e os professores de Educação Infantil e Ensino Fundamental. A partir do tema “Histórias em quadrinhos”, Elson vai falar sobre metodologias e práticas da linguagem dos quadrinhos, além de propor uma reflexão crítica sobre suas influências culturais, seu uso na sala de aula e importância no processo de ensino aprendizagem.
Estes momentos que envolvem atividades de construção coletiva compõem a programação da Pipinha Literária, reservada para as manhãs e tardes na praia de Pipa. De acordo com a coordenadora do Pipinha Literária, Maria Lúcia de Fátima Dias, a estimativa de participação será de 20 mil alunos e mais de 600 professores do município de Tibau do Sul, Canguaretama, Vila Flor, Nísia Floresta, Barra de Cunhaú, Goianinha, Ares, Várzea. Haverá exibições e debates sobre o conteúdo de filmes nacionais de curta metragem nos gêneros de animação, documentário e ficção. Todos os textos trabalhados nas salas da escola Vicência Castelo será de autores locais ou que participam do Festival Literário.
Seguindo a proposta arrojada de eventos como o Festival Literário de Paraty, no Rio de Janeiro, é que o Flipipa foi idealizado. “Queríamos unir o potencial turístico da cidade com algo que estava faltando na localidade”, explicou Dácio. Diferente das feiras de livro, que se fecham no processo mercadológico de produção, circulação e venda, o Flipipa promove uma transformação social, a partir da congruência de saberes e pessoas.
Assim como o ano passado, o festival conta com o apoio das associações de hotéis, que disponibilizou 62 leitos para os convidados, além da prefeitura de Tibau do Sul e do Governo do Estado. Segundo Dácio, outros parceiros também foram importantes para a concepção do evento, como livraria Siciliano, Companhia das Letras, InterTV Cabugi, Sebrae, UFRN, Sebo Vermelho, Sesc, Senac, Fecomércio, AmaPipa e EducaPipa.
Debates e embates literários
A noite do Festival Literário da Pipa fica por conta daquilo que Dácio Galvão chamou de debates e dmbates literários. Os convidados serão distribuídos em 10 mesas. Segundo o produtor cultural, todas elas têm a mesma característica, a de iniciar a discussão refletindo sobre o particular, o local até chegar ao abrangente, ao universal.
Será assim com a mesa composta pelo escritor moçambicano Mia Couto. Durante o debate motivado pelo tema “O Brasil que existe em nós”, o escritor fala sobre o quanto a África tem do Brasil, o quanto o Brasil tem da África e de seus próprios escritos, permitindo ainda a reflexão sobre a influência da língua portuguesa nestes encontros de cultura.
Os autores foram convidados para falar sobre o geral e o particular geograficamente e também tecnicamente. “Um debate que começa com quadrinhos pode desembocar na literatura. Nenhum nome foi pensado despropositadamente”, disse Dácio.
A diversidade de temas e de metodologia empregada para colocá-los na roda de debates, segundo Dácio não desvirtua o propósito do encontro, pelo contrário, reafirma. Pois “é na diversidade que se encontra os rumos dos textos literários por excelência”, explica o produtor cultural.
Mesas literárias
Numa breve listagem das mesas, o curador informou que dia 18 estarão em Pipa: os autores da novela gráfica ‘Cachalote’, Daniel Galera (SP) e Rafael Coutinho (SP), com mediação do jornalista Alex de Souza; Mia Couto (Moçambique) e a professora da UnP Conceição Flores (Portugal/RN); para falar sobre a obra ‘1822’ estará Laurentino Gomes (PR) e Raimundo Pereira Arrais (PE/RN). Na sexta-feira 19, participam da mesa ‘Tradição e modernidade em Gizinha, de Polycarpo Feitosa” os professores Tarcísio Gurgel e Nivaldete Ferreira; em seguida João Ubaldo Ribeiro (BA) e Geraldo Carneiro (MG), com mediação do jornalista Woden Madruga e o tema “strelas de Couro: A Estética do Cangaço”, com o escritor Frederico Pernambucano de Mello (PE), Sérgio Dantas (RN) e Clotilde Tavares (PB)).
No sábado 20, a programação abre com um bate-papo sobre jornalismo e cultura nas redes sociais, reunindo Dirceu Simabucuru, Laurita Arruda, Yuno Silva e Carlos Cavalcante (Carito). Em seguida, o tema Luiz da Câmara Cascudo: por uma fortuna crítica preservada, com Durval Muniz (PE), Moacy Cirne (RN) e Vânia Gicco (RN), tendo como mediador o jornalista Carlos Magno Araújo. Às 19h30 estarão na tenda o premiado escritor gaúcho João Gilberto Noll e Ilza Matias Sousa (RN). A programação termina com ‘Minha alma é irmã de Deus’: uma nova narrativa, com o premiado Raimundo Carrero (PE) e como debatedor o jornalista Carlos Peixoto, diretor de redação desta TRIBUNA DO NORTE
Foto Pipa: Alexando Gurgel
domingo, 17 de outubro de 2010
A Biblioteca de Caicó - Moacy Cirne - Será lançado na Feira do Livro do Seridó


O Sebo Vermelho estará presente na Feira do Livro do Seridó,
e fará lançamentos de livros raros da literatura potiguar,
um dos lançamentos mais esperados é a reedição do livro:
A Biblioteca de Caicó, do intelectual seridoense Moacy Cirne,
lançado em 1983 pela Livraria José Olympio Editora.
A Feira acontece de 20 a 23 de outubro na cidade de Caicó.
Feira do Livro do Seridó.
de 20 a 23 de outubro. Caicó - RN
programação oficial:http://www.feiradolivrodoserido.com.br/programacao-geral
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Viagem ao Sertão dos Missionários do Nordeste: Padres Rolim, Ibiapina e Cícero.



Por João da Mata Costa
Foi num sábado de primavera que de Natal partimos em direção ao sertão do padre Cícero Romão Batista. Na tripulação de quatro amigos (DaMata, Abimael, Homero e Antonio Medeiros), nenhum beato ou devoto do Padim Ciço.
Desde pequeno ouvimos nossos pais e avós falarem das romarias ao Juazeiro do Norte – A Meca do Nordeste. Sempre desejei fazer essa viagem assim como quem tem uma dívida com a sua cultura. Das promessas feitas e das graças alcançadas em tempos de privações e doenças por muitos familiares e amigos. Até os dias atuais essas romarias não arrefeceram e milhares de pessoas continuam fazendo a mesma peregrinação em direção ao Juazeiro onde está situado grande monumento do famoso padre do nordeste brasileiro.
A viagem ao cariri cearense foi feita via Caicó-RN, passando por Brejo do Cruz e Catolé do Rocha, na Paraíba. Terras-origens-cantadas pelos paraibanos Zé Ramalho e Chico César. Depois Sousa - terra dos Dinossauros – e, Cajazeiras. Viagem por um sertão profundo, cheio de mistérios e arcanos indecifráveis. Reserva cultural de um povo atencioso e pronto para qualquer informação. O Cariri Novo, de grandes engenhos de açuca, beatos, cangaceiros, coronéis e rica cultura popular.
O Vale dos Dinossauros
Indo ao nordeste do Brasil e passando em Sousa ( Pb), é obrigatória a visita ao Lajedo da Passagem de Pedras, onde fica situado o famoso “Vale dos Dinossauros” com as pegadas deixadas por dinossauros que habitavam essa região alagada. A visita é melhor ainda se for acompanhada pelo guia Robson Araújo Marques, o “Velho do Rio”. Robson é um norte-rio-grandense, nascido em Florania e há 35 anos trabalhando nesse importante sítio arqueológico que precisava ser melhor preservado e estudado. Seu avô Anísio Fausto da Silva indo em busca de animais perdidos, descobriu essas importantes pegadas e denominou “Rastro do Boi e da Ema”. Analisada depois por paleontólogos descobriu-se que aqueles rastros que impregnaram os lajedos da “Passagem das Pedras” eram fabulosos rastros de gigantes dinossauros que por ali passeavam e caçavam há milhões de anos.
A Cajazeiras do Padre Rolim
Em Cajazeiras o encontro marcado com o amigo e historiador Francisco Pereira. Um grande estudioso do Cangaço e da cultura nordestina. A paixão de Pereira por esses temas o levou a colecionar e comercializar livros referentes ao Cangaço, Canudos e cultura nordestina. Conversar com o simpático amigo professor Pereira é uma viagem por essa rica cultura de beatos, coronéis e cangaceiros. Já o conhecia via internet e foi uma alegria conversar pessoalmente com ele e comprar uma dezena de livros sobre o nordeste profundo, seus costumes e crenças.
Pergunto ao Pereira sobre o filme “O Sonho de Inacim”, e ele diz que não gostou. Não gostou das liberdades do filme que poderia ser um belo documentário, e não é. Não gostou do pai do menino como cantor brega e achou – como historiador- que o filme presta um péssimo serviço à memória historiográfica nacional ao filmar o padre Rolim num colégio num colégio diferente daquele criado e mantido pelo pioneiro educador Rolim.
“O Sonho de Inacim” – O filme sobre o Padre Rolim
Duzentos anos após o nascimento do padre Ignácio de Sousa Rolim, nascido em 22 de agosto de 1800, o filme o “Sonho de Inacim” resgata a história desse "Educador do Sertão" que viveu na cidade de Cajazeiras, Pb, onde fundou um colégio. O menino Inacim sonha tendo contato com o Pe Botânico e sofre muitas discriminações. Èxpulso da escola vai para o psicólogo, médico, lançadora de Búzios e deixa a todos perplexos com os seus poderes para-normais. O menino vira celebridade na pequena cidade de cajazeiras já dominada por traficantes. Todas as revelações do menino Inacim são depois confirmadas pelo biógrafo do Pe Rolim, Padre Heliodoro Pires, que escreveu o importante "Padre Mestre Ignácio Rolim", onde narra o pioneirismo do Pe Rolim no ensino da região da Paraíba. Rolim foi o melhor professor de Grego em seu tempo e a Paraíba teve que lutar para não perder o mestre para Olinda- PE.
O naturalista Pe Rolim de descendência francesa escreveu os importantes livros “Extracto de Gramática Grega” e “Noções de História Natural”, onde descreve a fauna e flora do Sertão. Do colégio fundado pelo Pe Sábio saíram alguns dos maiores sacerdotes e personalidades do Brasil: O controvertido Padre Cícero Romão Batista, o Cardeal Arcoverde (Primeiro cardeal da América Latina), Peregrino de Araújo (Governador da Paraíba 1900-1904), Irineu Joffily (historiador, jornalista e advogado Paraibano) e outros.
Um belo filme dirigido por Eliezer Filho que resgata a fundação da cidade de Cajazeiras na Paraíba (terra do diretor). A importância na nossa formação e cultura dos padres que aqui chegaram. Um belo elenco, fotografia e a música do Chico César. O som das vozes (mesmo em Dolby) não está muito bom.
José Wilker (sempre o mesmo) faz o Pe Rolim. Completa o elenco a excelente Marcelia Cartaxo, como mãe do menino Inacim (Gabriel Batistuta). E o excelente (meu voto de melhor ator) José Dumont - o Miguel do Jegue - toma uma cachaça amuada. O cantor brega Zé das Antas (Fubá) - o pai do menino - deixa a sua mãe e é suspeito de envolvimento com drogas.
Onde estão os restos mortais do padre Rolim, querem saber as autoridades da cidade para comemorar em grande estilo o seu bicentenário em 2000. Ninguém sabe. Inacim diz que o Padre está vivo. Claro, ele está sempre vendo o sacerdote professor e fala com o padre. Vê seu belo museu, etc.
Padre Ibiapina – o “Taumaturgo da Caridade”
Padre Ibiapina nasceu na cidade de Sobral (Ceará) em cinco de Agosto de 1806, seis anos após o nascimento do padre Rolim. Foi um grande peregrino do sertão nordestino e criador de inúmeras casas de caridade. Multidões seguiam seus ensinamentos de amor ao próximo, Mulheres eram acolhidas em suas 22 casas de caridades (dez só na Paraíba) deixadas por ele no Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Piauí e Ceará.
O padre Ibiapina foi o precursor de um catolicismo popular, inspirador de Antonio Conselheiro, Padre Cícero e de muitos outros padres, beatos ( Gedeões) e missionários. Um grande educador do nordeste deixou marcas profundas num séqüito de fies seguidores, Nas casas de caridades as mulheres abrigadas aprendiam a ler, a contar, Aprendiam cozinhar, artesanar e recebiam também uma educação religiosa e moral. Quantos rccém-nascidos não foram deixados na “ Roda dos Enjeitados” ou Expostos e abrigados pelas caridosas do padre educador da Paraíba e de todo nordeste brasileiro.
Padre Ibiapina realizou missões, organizou o povo humilde pólvora dos coronéis, conciliou intrigas, levantou e restaurou igrejas e capelas. Construiu em mutirões, o refrigério do nordeste: açudes, cacimbas e barragens.
O escritor e amigo Bartolomeu ganhou de herança e forneceu a um amigo uma bandeira daquelas usadas nas missões evangelizadoras do grande padre Ibiapina.
No dia 19 de fevereiro de 1883 falece o apostolo Ibiapina e seu tumulo está situado em Santa Fé, Paraíba.
Padim Ciço
O destino motivador da nossa viagem era o Juazeiro do padre Cícero Romão. Juazeiro, árvores que abriga o nordestino do sol inclemente, Já do hotel avistávamos a grande estátua do nosso Padim Ciço. A chegada ali foi coberta de grande emoção e sentimentos que amolecem o coração mais empedernido. Centenas e centenas de ônibus trazem os penitentes numa segunda feira imprensada, véspera do feriado da padroeira do Brasil. Tudo na cidade vive em função do padre Cícero e de suas pregações seguidas por uma multidão de fieis de todo o Brasil. Nordestinos eternamente pregados na cruz de uma terra seca e um sol inclemente.
Subimos a serra do horto cheio de penitentes e vendedores da fé, Imagens, fitas do padim Santo e velas para acender e rezar. Ouvem-se muitas rezas e loas em homenagem ao santo do nordeste.
Na casa de orações - ao lado - muitos ex-votos de madeira e fotos, A estátua do padre Cícero ao lado da beata Maria de Araújo, que em 1891 deixou a todos estupefatos quando a hóstia ficou vermelha em sua língua.
Romeiros com suas túnicas marrons, A ordem dos penitentes com seus costumes medievais e seguidores que se flagelam e entoam benditos. Tudo isso compõe um cenário de fé e de uma cultura viva, para alem das discussões acadêmicas sobre a beatitude e comportamento coronelístico do padre Cícero.
Multidões sobem as escadas para chegar mais perto da estátua do padre. Estátua que olha e abençoa o Cariri e seus devotos. Subo também e fico comovido com tanta fé e adorações. Assino meu nome no pé da estátua gigante. Muitos outros assinam formando um manto de letras e preces abençoadas pelo sacerdote nordestino.
Desço e digo para os meus amigos que ficaram em baixo que me sinto purificado. Um responde que estar cansado. Outro diz que tem sede.
É hora de voltar. Promessa cumprida. Muitos pedintes aproveitam para receber um dízimo dos beatos que rezam, pagam promessas e pedem pelos seus entes vivos e mortos.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
OS PRE TEXTOS DE FALVES SILVA

O artista multimidia Falves Silva, lançou recentemente o belo livro PreTextos. uma edição muito curiosa , pois os livros feitos pelo poeta são completamente originais, com uma edição limitadíssima, pois a produção até agora foram de apenas 15 unidades, devido a complexidade de produção de cada exemplar, colagens, poemas, cores, papeis especiais montados cuidadosamente justificam o trabalho de Falves. Quem quiser adquirir o seu exemplar basta encontrar o poeta na cidade alta. A edição conta com a colaboração da Oficina Gráfica do Sebo Vermelho sob o comando do mestre Miro
“Pintor surrealista em 1966, poeta/processo a partir de 1967, Falves Silva, em apenas dez anos de atividades experimentais no interior de uma forte especulação (anti)literária, conseguiu se firmar como um dos maiores produtores contraculturais brasileiros do momento. Seus poemas e sua lucidez crítica e produtiva colocam-se no centro da vanguarda a mais militante possível, entre nós, de Anchieta Fernandes a J. Medeiros, de Dailor a Wlademir Dias-Pino. (...) E Falves Silva é um produtor, com os olhos voltados para o alcance (estético) da produtividade, seja em sua vertente formalista, seja em sua vertente estrutural. (...) Falves Silva é um produtor, repitamos: ele não “cria” poemas, o que seria cair no vício humanista da “criação” idealizada segundo padrões acadêmicos; ele produz poemas, o que implica a materialização de linguagens que existem dentro de um contexto social determinado. O poema, materialmente proposto, tem uma vigência histórica que é também cultural.”
MOACY CIRNE,
em A POESIA E O POEMA DO RIO GRANDE DO NORTE (Natal: Fundação José Augusto, 1979, p. 33-36)
“A poesia concreta trazia experimentos com a palavra e com seu espaço. Apesar dessa inovação, ela se encerrava na palavra. Nós buscávamos algo novo, e, em 1967, começamos a divulgar uma nova teoria, muito baseada na obra de Wlademir Dias-Pino. Ele fazia poema/processo. Como trocávamos correspondências com Moacy [Cirne], que nesta época morava no Rio, o contato foi tornando real um movimento que chamamos poema/processo.”
“É importante frisar que o movimento foi uma luta contra a palavra. A linguagem havia evoluído muito desde a poesia concreta. Começamos a estudar e a perceber que em países como Itália e no Chile já havia uma poesia chamada visual. Eles consideravam figuras, perfurações, transparências e mesmo o ato de um protesto, como sendo um poema. Nós nos inspiramos nisso. O poema/processo nasceu com a proposição de não ser fechado em si e por isso mesmo. Era o fim do copyright (direitos autorais). Se uma pessoa pega o meu poema e faz uma versão, ambos estamos trabalhando numa idéia, seja uma proposta de arte, política ou tecnológica.“
“Processo é uma coisa em construção. Se a poesia tradicional acha que um poema está concluído, possui um autor, que não aceita que ninguém o altere, o poema/processo , por sua vez, tem a tese do poema em processo. Só tem valor quando seu processo é trabalhado por diversos autores, com novas versões, partindo do gráfico para o objetual, para o cinematográfico, até esgotar toda aquela proposta inicial do poema. Eu, Dailor e Marcos Silva sugerimos que o movimento fosse chamado de “programações/processo”, mas a sugestão não foi aceita pelos do sul e não pegou nacionalmente. Achávamos que, para radicalizar totalmente contra a literatura, nossas produções não deveriam ser chamadas de poemas.”
(José de Anchieta Fernandes Pimenta, nascido em Caraúba, Rio Grande do Norte, em 1939. É autor da obra Por uma vanguarda Nordestina, 1976).
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Uma homenagem ao velho e sempre jovem Artaud

"Carta aos Reitores das Universidades Européias
Senhores Reitores,
Na estreita cisterna que os Srs. chamam de "Pensamento", os raios espirituais apodrecem como palha.
Chega de jogos da linguagem, de artifícios da sintaxe, de prestidigitações com fórmulas, agora é preciso encontrar a grande Lei do coração, a Lei que não seja uma lei, uma prisão, mas um guia para o Espírito perdido no seu próprio labirinto. Além daquilo que a ciência jamais conseguirá alcançar, lá onde os feixes da razão se partem contra as nuvens, existe esse labirinto, núcleo central para o qual convergem todas as forças do ser, as nervuras últimas do Espírito. Nesse dédalo de muralhas móveis e sempre removidas, fora de todas as formas conhecidas do pensamento, nosso Espírito se agita, espreitando seus movimentos mais secretos e espontâneos, aqueles com um caráter de revelação, essa ária vinda de longe, caída do céu.
Mas a raça dos profetas extinguiu-se. A Europa cristaliza-se, mumifica-se lentamente sob as ataduras das suas fronteiras, das suas fábricas, os seus tribunais, das suas universidades. O Espírito congelado racha entre lâminas minerais que se estreitam ao seu redor. A culpa é dos vossos sistemas embolorados, vossa lógica de 2 mais 2 fazem 4; a culpa é vossa, Reitores presos no laço dos silogismos. Os Srs. fabricam engenheiros, magistrados, médicos aos quais escapam os verdadeiros mistérios do corpo, as leis cósmicas do ser, falsos sábios, cegos para o além-terra, filósofos com a pretensão de reconstituir o Espírito. O menor ato de criação espontânea é um mundo mais complexo e revelador que qualquer metafísica.
Deixem-nos pois, os Senhores nada mais são que usurpadores. Com que direito pretendem canalizar a inteligência, dar diplomas ao Espírito?
Os Senhores nada sabem do Espírito, ignoram suas ramificações mais ocultas e essenciais, essas pegadas fósseis tão próximas das nossas próprias origens, rastros que às vezes conseguimos reconstituir sobre as mais obscuras jazidas dos nossos cérebros.
Em nome da vossa própria lógica, voz dizemos: a vida fede, Senhores. Olhem para seus rostos, considerem seus produtos. Pelo crivo dos vossos diplomas passa uma juventude abatida, perdida. Os Senhores são a chaga do mundo e tanto melhor para o mundo, mas que ele se acredite um pouco menos à frente da humanidade."
PS.: anexo 1
dédalo s. m. adj.
dédalo
do Lat. Daedalu, n., p. s. m.,
labirinto; encruzilhada; confusão; complicação.
do Lat. daedalu adj., ant.,
engenhoso; complicado; executado com arte; ricamente adornado.
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