segunda-feira, 5 de julho de 2010

UMA PREÁ QUE NÃO DIZ NADA, UMA FUNDAÇÃO E UM PRESIDENTE AFUNDANDO




José Correia Torres Neto no Substantivo Plural


Ontem recebi de presente a Revista Preá (número 22, edição de maio/junho de 2010) e a folheei por quase duas horas. Percebi alguns elementos que me deixaram surpreso – uma surpresa arremedada de espanto – e que chegaram até a desfigurar o que eu esperava daquela revista. Isso que escrevo não se trata da minha estréia na crítica cultural de Natal, pois nem tenho formação e nem atrevimento bastante para isso. Mas é uma forma de avaliar o que se passa em um dos instrumentos culturais considerado como referência no nosso estado. Digo isso porque acompanho a revista desde o seu lançamento e vi como ela se firmou enquanto um mecanismo de divulgação e registro da cultura potiguar.

Quase calada

Logo no início da revista encontramos duas páginas, que podem ser consideradas como um muro de lamentações ou com um palavreado de uma vizinha velha no parapeito de uma janela de duas bandas que dá para a rua da frente, com o testemunho da atual presidência da maior instituição cultural do estado. Parecem até moda, na nossa atualidade, os surtos lingüísticos, ou quase psicóticos, que alguns presidentes são acometidos e que chegam até a debulhar meia dúzia de palavras surdas-mudas sem destino e sem ouvintes/leitores. O precioso espaço foi utilizado para explicar (ou seria para justificar?) os atropelos administrativo-burocráticos que impediram que a revista fosse lançada há mais tempo e também para enviar recados aos desafetos, e acho também que foram destinados a alguns amores não correspondidos ou trincados ao longo dessa administração.

A sopa rala, insossa e fria de letrinhas subscrita pela presidência traça um diagnóstico preciso de como se vive ou se encara a vida pública no nosso estado, não importando se é cargo efetivo conquistado através de concurso público e regido por um código de ética ou apenas um cargo efêmero conseguido por apadrinhamentos ou conluios. Antes de passar para a página seguinte, me perguntei: Será esse o local apropriado para tal desabafo? E, o leitor, o que tem a ver com isso?

Imagens, imagens, imagens…

Páginas e mais páginas e espaços e mais espaços em branco, sem audácia, atrevimento ou criatividade constituíram o projeto gráfico da revista. Não podemos esperar uma apatia gráfica em uma revista cultural na qual se pressupõem que a diversidade do fazer artístico é o principal elemento que promoverá a sua construção. Singularidade e simplicidade foram confundidas com ausência e desleixo. Algumas matérias, que poderiam ser apresentadas de forma mais elaborada, caíram numa indolência meio velada. Pela tecnologia gráfica, pelos recursos técnicos da atualidade e pelos talentos profissionais espalhados pelo mercado não se admite mais aquela máxima que diz que “o conteúdo é o que importa”. O que se exige é que um bom conteúdo seja agraciado por um projeto gráfico de qualidade e que agregue indiscutíveis valores a uma publicação. Faltou isso na Preá…

Errar por sermos apenas humanos
Se existem respostas elas ainda não conseguiram justificar as várias lacunas apresentadas na revista. Não é de bom grado ficar em silêncio diante da falha de impressão, da superficialidade apresentada por textos que podiam ir muito além do que foi escrito, da falta de atenção no que se escreve no sumário e o que foi apresentado no corpo da revista, da trivialidade como foram apresentadas as belas imagens, dentre outros.

Acredito na feroz batalha em produzir uma revista. Na dificuldade de arregimentar pessoas, idéias, imagens e assuntos e espalhá-los em noventa e duas páginas na esperança de estar fazendo o certo e agradar coloridos e incolores. Mas, os parâmetros dessa certeza oscilam de acordo entre a disposição que uma pessoa tem em acertar e na outra que se disponibiliza julgar. E o pior acontece quando estão envolvidos elementos como dinheiro público e desafeições políticas mostradas na abertura da revista.

Salvem-se quem puder ou “pernas, para que vos quero?”

A impressão – palavra muito bem empregada neste assunto – que a revista passa ao leitor é que foi produzida em cima da hora, no apagar das luzes, para mostrar algo que nem ela mesma, a revista, propunha.

Até quando vamos ver os desejos pessoais se sobressaírem em relação à racionalidade? E, principalmente, ao erário? Até quando vamos esperar um homem ou mulher com sangue no olho para traçar um planejamento em médio ou em longo prazo para a cultura do nosso estado? Até quando vamos esperar um corajoso ou corajosa que crie um fundo estadual de cultura? Até quando teremos que pedir permissão para mendigar apoio cultural através de leis meia-boca? E até quando a subserviência será critério de competência?

E lá se foi mais uma Preá, perdida na toca das veleidades…

domingo, 4 de julho de 2010

O PIVÔ DA ANARQUIA



Roberto Piva: Pivô da Anarquia (*)

É certamente meio ridículo que um poeta apresente em nota biográfica "um antepassado cavaleiro que combateu nas Cruzadas" e que "virou herético & começou a pregar a favor do Demônio", como fez Roberto Piva. O fato, em si, não passaria de um episódio anedótico, caso o poeta paulista não acreditasse verdadeiramente (para não dizer piamente) que representa, ou melhor, que é um poeta maldito, acrescentando: "Só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental". O que caracteriza a condição de marginalidade não é propriamente a escolha de temas pouco ortodoxos, mas sim a transparência entre o objeto artístico (a obra) e a prática da autobiografia, eliminando as fronteiras entre os dois. De Aretino a Jean Genet, de Gregório de Matos a Jack Kerouac - certa atitude confessional é imprescindível para o adensamento da marginalidade. A mera intenção de ser marginal, acontecimento tão valorizado por poetas que querem pelo menos salvar a vida, pois o que escrevem é mesmo medíocre, corresponde a um evidente artificialismo. No caso de Roberto Piva, desnecessário: sua poesia escapou aos truques fáceis que marcaram boa parte da produção poética dos anos 70; ao mesmo tempo, fez retornar uma tradição ligada às tendências surrealistas e surrealizantes, que há muito tinham sido trocadas por um discurso caótico, afastado conscientemente da pretensão literária. Já com a publicação do primeiro livro, Paranóia (1963), Roberto Piva apresentava um conjunto de influências bastante razoável - com o que se afastava da noção de "vazio cultural" que iria imperar nos anos seguintes. Assim, sua poesia declara uma revolução relativa até mesmo à geração em que estava inserido, conforme escreveu num dos 20 Poemas Com Brócoli (1981):

Sou um navio lançado ao
alto-mar das futuras
combinações.

A promoção da anarquia, contudo, não é uma bandeira solitária da sua poesia. Roberto Piva logrou conciliar ao seu tom visionário uma qualidade por vezes incompatível com as propostas radicais - a da erudição. Não se trata, no seu caso, de resgatar escritores conformados às estéticas literárias, nem mesmo de limitar as influências à literatura, alargando-as à musica e às artes plásticas. Entretanto, à diferença da contestação cultural daquele instante, sua poesia apresenta uma linhagem artística nem sempre conhecida ou assimilada pela literatura brasileira. E é com ela que Roberto Piva intensifica a sua desordem: a intenção anárquica seria tão-somente uma curiosidade literária se não estivesse balizada pela intenção de criar, paradoxalmente, uma tradição - embora renovada. Assim como os poetas concretistas são essencialmente importantes porque fizeram surgir autores nunca dantes freqüentados pelos nautas do Brasil, Roberto Piva refere-se à existência dos expressionistas alemães, de certa literatura mística (como a do alemão Jacob Boëhme) e de obras quase esquecidas (por exemplo, a de Thomas de Quincey) que, por si, remodelam o panorama das influências possíveis sobre a poesia brasileira.

Seus poemas são quase sempre curtos, fragmentados - mas jamais episódicos. Talvez lamentavelmente, sobretudo para quem reclama da existência de ordens e normas, surpreende a coerência de sua obra ao longo de mais de vinte anos. Sua técnica é surrealista, crivada de versos grandiloqüentes que apelam para todos os sentidos, a exemplo de

onde borboletas de zinco devoram as góticas (hemorróidas das beatas

e muitas vezes não escondem um sentimento de justiça social e declaram o vínculo ao lirismo convulsivo de um André Breton. Ao mesmo tempo, versos mais meditativos aparecem:

o mundo continua sendo um breve colapso logo (que as pálpebras baixem.

Tudo isso de par com incessantes imagens sexuais, todas violentas, todas contrastadas, de um lirismo todo físico:

só acredito na geléia genital.

Na tradição da poesia erótica brasileira, Roberto Piva é de uma importância única. À parte as produções declaradamente fesceninas, ou ainda de cunho pornográfico, poucos foram os poetas que relataram a condição homossexual. No seu caso, a predileção estética é mesmo exacerbada e obsessivamente referida, a ponto de servir de título a um de seus livros, o eloqüente Coxas (1979). Ao seu redor, ele reuniu uma confraria sexual formada por Lautréamont (citado a propósito de seu amor pelos "pálidos adolescentes"), Rimbaud, Georges Bataille (em referência sutil à pederastia) e até mesmo Dante Alighieri, referindo-se ao cenário dos sodomitas condenados ao Inferno. Mais uma vez, a qualidade de seus poemas se deve menos à suposta radicalidade que ao bom arremate literário. Mesmo porque as perversões citadas não são inéditas nem mesmo nos clássicos modernos. Já Drummond, em "O Sátiro", escrevia:

Hildebrando insaciável comedor de galinhas.
Não as comias propriamente - à mesa.

Ou então, mais coerente com o gosto poético de Roberto Piva, recorde-se o belo poema "Rapto", em que, num laborioso trabalho de imagens, Drummond comenta o amor entre homens, "outra forma de amar no acerbo amor". Também Roberto Piva, em "Ganimedes 76", renova o mito da homossexualidade, e em outro poema, num de seus versos mais delicados, escreve:

suas coxas latejam de tesão & calma.

Roberto Piva é, no plano da poesia brasileira, um executante das partituras deixadas na última fase de Murilo Mendes e Jorge de Lima. Os dois poetas são decerto os menos compreendidos do Modernismo - isso porque, tendo escrito obras "típicas" na eclosão do movimento, optaram mais adiante por caminhos intensamente pessoais. Murilo Mendes foi o mais surrealista, ainda que agitado por indagações religiosas que apenas radicalizaram a sua poesia visionária. Jorge de Lima, porém, fez proeza maior: fundiu-se ao Barroco, especialmente em Invenção de Orfeu (1952). Se for de fato correto apreciar na poesia de Roberto Piva uma estética da fusão, em que várias tendências artísticas se cruzam, não é menos lícito registrar que, quase sempre profana, sua poesia é também agitada por uma teologia atormentada, que inaugura o Delirium Tremens diante do Paraíso.



Nota

(*) Suplemento Idéias, Jornal do Brasil, 24.1.1987

quarta-feira, 30 de junho de 2010

UM POEMA DE NINNA RIZZI PARA O SEBO VERMELHO



SEBO VERMELHO
(pra abimael silva)

o isqueiro de nina rizzi
é vermelho como o sebo de abimael.

a boca de nina rizzi
é sebodolente como o vermelho de abimael.

o desejo de nina rizzi
é sebo vermelho, como abimael.

arte de Alexandre Oliveira sobre foto de ninna rizzi

*

terça-feira, 29 de junho de 2010

NA MINHA CIDADE BATE UM CORAÇÃO ABC - 95 ANOS DE GLÓRIA



Em 1915 surgia o Mais Querido

Natal ainda era uma cidade pacata e provinciana, com uma população estimada em 27 mil habitantes, quando no início do século XX, mais precisamente aos 29 dias do mês de junho do ano de 1915, surgia o ABC Futebol Clube: primeiro clube de futebol do Rio Grande do Norte, e que se transformaria, com o passar dos anos, na maior e mais querida agremiação futebolística do estado e recordista mundial em conquistas de títulos estaduais. A cidade tinha como presidente (o termo prefeito ainda não existia) da Intendência Municipal de Natal, o comerciante e abolicionista Romualdo Galvão; e o Rio Grande do Norte acabara de eleger em 1914, pela primeira vez pelo voto direto, o magistrado Joaquim Ferreira Chaves, para governar os destinos do povo potiguar, acabando com a oligarquia dos Albuquerque Maranhão.
Casa onde o ABC foi fundado em
29 junho de 1915

“A distração daquele tempo era o cinema Politheama de “seu” Leal, as festas religiosas, um futebol ainda muito primitivo e o tão falado circo do “seu” Striguini, que vez por outra aparecia por aqui...não havia vôlei, nem basquete, nem concursos de misses, nem biquínis e nem “brejeiras”. Os homens tinham palavra e prezavam a sua honra, e o nosso Réis era moeda forte”, relatou o ex-presidente do ABC, médico José Tavares, em conferência proferida por ele na comemoração do 44º aniversário do ABC, em 1959. Vale somar as referências de entretenimento da época, levantadas por José Tavares, o Cine-Teatro Carlos Gomes, hoje Teatro Alberto Maranhão.

Esse era o cenário de Natal em meados da década de 1910, quando na tarde, do dia 29 de junho de 1915, um grupo de jovens natalenses, alguns praticantes de remo, fundou o ABC Futebol Clube. O surgimento do Mais Querido aconteceu num dos cômodos do casarão do coronel Avelino Alves Freire – respeitado comerciante e presidente da Associação Comercial do RN –, situado na Av. Rio Branco, no bairro da Ribeira, com frente para os fundos do então Cine-Teatro Carlos Gomes.


fonte: http://www.abcfc.com.br

quarta-feira, 23 de junho de 2010

BEM VINDO O INVERNO...A CHUVA




Por Jarbas Martins

A CHUVA
Jorge Luís Borges
(tradução de Jarbas Martins)

Bruscamente o ar se fez iluminado
Porque já cai a chuva minuciosa.
Cai ou caiu. A chuva, por enganosa,
É uma coisa que ocorre no passado.

Quem a ouve cair, crê resgatado
O tempo em que a sorte venturosa
Lhe revelou uma flor chamada rosa
E a curiosa cor que é o encarnado.

Esta chuva, que cega o cristal, há de
Alegrar nos perdidos arrabaldes
As negras uvas de uma parreira e o seu

Pátio que já não existe mais. Molhada,
Traz-me a tarde de volta a desejada
Voz, a voz de meu pai que não morreu.

Ao meu pai, Luiz de França Martins,
In memoriam

Transcrito do Substantivo Plural - Tácito Costa

sexta-feira, 18 de junho de 2010

SARAMAGO...SEMPRE SARAMAGO..1922 - 2010



Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores.(…) Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias(…)

— Saramago, A Jangada de Pedra, 1986

Romances

* Terra do Pecado, 1947
* Manual de Pintura e Caligrafia, 1977
* Levantado do Chão, 1980
* Memorial do Convento, 1982
* O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984
* A Jangada de Pedra, 1986
* História do Cerco de Lisboa, 1989
* O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991
* Ensaio Sobre a Cegueira, 1995
* Todos os Nomes, 1997
* A Caverna, 2000
* O Homem Duplicado, 2002
* Ensaio Sobre a Lucidez, 2004
* As Intermitências da Morte, 2005
* A Viagem do Elefante, 2008
* Caim, 2009



Peças teatrais

* A Noite
* Que Farei com Este Livro?
* A Segunda Vida de Francisco de Assis
* In Nomine Dei
* Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido



Contos

* Objecto Quase, 1978
* Poética dos Cinco Sentidos - O Ouvido, 1979
* O Conto da Ilha Desconhecida, 1997

Poemas

* Os Poemas Possíveis, 1966
* Provavelmente Alegria, 1970
* O Ano de 1993, 1975



Crónicas

* Deste Mundo e do Outro, 1971
* A Bagagem do Viajante, 1973
* As Opiniões que o DL Teve, 1974
* Os Apontamentos, 1977



Diário e Memórias

* Cadernos de Lanzarote (I-V), 1994
* As Pequenas Memórias, 2006

Viagens

* Viagem a Portugal, 1981



Infantil

* A Maior Flor do Mundo, 2001

quarta-feira, 16 de junho de 2010

SALVE JOYCE




"Ulisses é um livro para se ter, para se conviver com ele. Tomá-lo emprestado é provavelmente mais do que inútil, porque a sensação de urgência imposta pelo limite de tempo de leitura luta contra o lento andamento do livro, uma música pausada que exige um ouvido sem pressa e oferece pouco ao olho ligeiro, nutrido pelo jornal".

Anthony Burgess, autor de "Homem Comum Enfim