terça-feira, 2 de agosto de 2011

22 anos sem o Rei do Baião


A Triste Partida
Luíz Gonzaga
Composição: Patativa do Assaré


Meu Deus, meu Deus
Setembro passou
Outubro e Novembro
Já tamo em Dezembro
Meu Deus, que é de nós,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, ai
A treze do mês
Ele fez experiênça
Perdeu sua crença
Nas pedras de sal,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal
Ai, ai, ai, ai
Rompeu-se o Natal
Porém barra não veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito além
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois barra não tem
Ai, ai, ai, ai
Sem chuva na terra
Descamba Janeiro,
Depois fevereiro
E o mesmo verão
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: "isso é castigo
não chove mais não"
Ai, ai, ai, ai
Apela pra Março
Que é o mês preferido
Do santo querido
Sinhô São José
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé
Ai, ai, ai, ai
Agora pensando
Ele segue outra tria
Chamando a famia
Começa a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nóis vamo a São Paulo
Viver ou morrer
Ai, ai, ai, ai
Nóis vamo a São Paulo
Que a coisa tá feia
Por terras alheia
Nós vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Ai pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar
Ai, ai, ai, ai
E vende seu burro
Jumento e o cavalo
Inté mesmo o galo
Venderam também
Meu Deus, meu Deus
Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem
Ai, ai, ai, ai
Em um caminhão
Ele joga a famia
Chegou o triste dia
Já vai viajar
Meu Deus, meu Deus
A seca terrívi
Que tudo devora
Ai,lhe bota pra fora
Da terra natal
Ai, ai, ai, ai
O carro já corre
No topo da serra
Oiando pra terra
Seu berço, seu lar
Meu Deus, meu Deus
Aquele nortista
Partido de pena
De longe acena
Adeus meu lugar
Ai, ai, ai, ai
No dia seguinte
Já tudo enfadado
E o carro embalado
Veloz a correr
Meu Deus, meu Deus
Tão triste, coitado
Falando saudoso
Com seu filho choroso
Iscrama a dizer
Ai, ai, ai, ai
De pena e saudade
Papai sei que morro
Meu pobre cachorro
Quem dá de comer?
Meu Deus, meu Deus
Já outro pergunta
Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato
Mimi vai morrer
Ai, ai, ai, ai
E a linda pequena
Tremendo de medo
"Mamãe, meus brinquedo
Meu pé de fulô?"
Meu Deus, meu Deus
Meu pé de roseira
Coitado, ele seca
E minha boneca
Também lá ficou
Ai, ai, ai, ai
E assim vão deixando
Com choro e gemido
Do berço querido
Céu lindo e azul
Meu Deus, meu Deus
O pai, pesaroso
Nos fio pensando
E o carro rodando
Na estrada do Sul
Ai, ai, ai, ai
Chegaram em São Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Percura um patrão
Meu Deus, meu Deus
Só vê cara estranha
De estranha gente
Tudo é diferente
Do caro torrão
Ai, ai, ai, ai
Trabaia dois ano,
Três ano e mais ano
E sempre nos prano
De um dia vortar
Meu Deus, meu Deus
Mas nunca ele pode
Só vive devendo
E assim vai sofrendo
É sofrer sem parar
Ai, ai, ai, ai
Se arguma notíça
Das banda do norte
Tem ele por sorte
O gosto de ouvir
Meu Deus, meu Deus
Lhe bate no peito
Saudade de móio
E as água nos óio
Começa a cair
Ai, ai, ai, ai
Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patrão
Meu Deus, meu Deus
O tempo rolando
Vai dia e vem dia
E aquela famia
Não vorta mais não
Ai, ai, ai, ai
Distante da terra
Tão seca mas boa
Exposto à garoa
A lama e o paú
Meu Deus, meu Deus
Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo
No Norte e no Sul
Ai, ai, ai, ai

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Lembrando José HELMUT Cândido


Organizado por Abimael Silva, o Livro mostra um pouco da enigmática figura que marcou época pelas ruas escuras da Cidade Alta. O Ex. carteiro de Cascudo José Helmut Cândido é lembrado pelos amigos e admiradores, jornalistas e agregados do Sebo Vermelho, momes como Rodrigo Levino, Eugenio Meio Quilo, Muirarikitan, Sérgio Vilar, Abimael Silva, João da Mata Costa entre outros. O Lançamento será no Sebo Vermelho no próximo sábado 30.Jul. a partir das 10h. regado a muita pinga e tiragostos preparados pelo anfitrião e editor.

Diante de qual trono?


Gostava de ler a bíblia. Até tentei completar a leitura sequencial quando mais jovem. Fui educado sob forte influência religiosa. Tenho minhas convicções e sobretudo minha fé. E diante delas, afirmo: o meu “trono” é outro, é diferente do dessa banda (ou bando).

A matéria da Tribuna do Norte publicada hoje (editoria de política) afirma que a gravação do DVD do grupo em Barretos custou R$ 45 mil. Aqui foram R$ 290 mil. “Recursos financeiros foram providos pelas mãos do Senhor através de diversos meios”, disse a vocalista.

Qual “Senhor”? Talvez aquele senhor que pede esmola na rua, à margem dos olhares municipais. Aquele senhor artista, renegado pelas políticas públicas à cultura. Ou de repente, os senhores safados do contracheque. Não é o Senhor “papai do céu” onde despejo minha fé.

A matéria diz que a vocalista Ana Paula Valadão confirmou a ajuda sem citar valores. Eu mesmo perguntei a ela e a afirmação foi de que a ajuda foi logística ou financeira mediante empresas e igrejas. Ela negou, sim, ajuda financeira pública. Omitiu e mentiu.

Enquanto renomados da música nacional viajam com equipes de três, cinco pessoas, a comitiva do grupo ocupou em Natal 58 apartamentos, segundo a TN. Custaram ao seu bolso, amigo trabalhador trapaciado, R$ 40 mil, pagos pelo Governo de Rosalba.

A “humilde” vocalista se hospedou com a sua família em um dos hoteis mais luxuosos da cidade. De certo, seus “chegados” também irão colaborar para o turismo da cidade. Sim, Turismo foi a rúbrica assinada pela prefeitura e governo para justificar o “louvor”.

Talvez por isso a Fundação receptora do seu dinheiro, amigo cidadão, se chame Oásis. Parabéns à prefeita, à governadora. A Tertuliano Pinheiro, um salve! Parabéns vereador Albert Dickson, o mentor! Um alô pra empreendedora Emproturn! Parabéns a todos pela ação cidadã!

E eu que li, ainda menino, que a Luxúria e a Ganância eram pecados capitais. Fui ensinado pelos meus pais que mentir é feio. Aprendi depois o que era hipocrisia. E até hoje aprendo quem são os pelegos de merda dessa cidade.

http://diariodotempo.com.br/
Sergio Vilar

domingo, 24 de julho de 2011

A melhor voz do mundo na atualidade se cala..Vá com Deus Amy.

Sebo Vermelho prepara edição especial em Homenágem ao filósofo, poeta e pintor Helmut.




O FILÓSOFO ENCARA A LENTE FIRMEMENTE
ATRÁS O VELHO SAFADO CHARLES BUKOWSKI
OBSERVA A CENA.
ABAIXO NO ORIGINAL EM INGLÊS A PANCADA POEMA
THE SUICIDE KID.

the suicide kid
by Charles Bukowski
I went to the worst of bars
hoping to get
killed.
but all I could do was to
get drunk
again.
worse, the bar patrons even
ended up
liking me.
there I was trying to get
pushed over the dark
edge
and I ended up with
free drinks
while somewhere else
some poor
son-of-a-bitch was in a hospital
bed,
tubes sticking out all over
him
as he fought like hell
to live.
nobody would help me
die as
the drinks kept
coming,
as the next day
waited for me
with its steel clamps,
its stinking
anonymity,
its incogitant
attitude.
death doesn't always
come running
when you call
it,
not even if you
call it
from a shining
castle
or from an ocean liner
or from the best bar
on earth (or the
worst).
such impertinence
only makes the gods
hesitate and
delay.
ask me: I'm
72.
composed by argumentodesign

terça-feira, 19 de julho de 2011

Prosa e Poesia de H. Castriciano por Daladier Pessoa Cunha Lima Reitor da FARN



José Geraldo de Albuquerque prestou valioso contributo às letras do Rio Grande do Norte, ao pesquisar e reunir textos, prosa e poesia, de Henrique Castriciano de Souza, a pedido da Professora Noilde Ramalho. Todo esse material, de grande significação literária, foi obtido em diversas fontes, as quais foram os meios de divulgação de criações do grande poeta e escritor norte-rio-grandense. São três livros publicados, volumes I, II e III sob o título “Henrique Castriciano – Seleta, Textos e Poesias”, respectivamente, em 1993, 1994 e 2004. Ao todo, são 228 trabalhos, especialmente crônicas e poesias, que HC escreveu para jornais e revistas de Natal, de Pernambuco e do Rio de Janeiro, além de alguns discursos e conferências. Na antiga capital do país, onde o poeta viveu por vários anos, os escritos saíram em prestigiosos jornais da época, com destaque para “O País”, “Brasil” e “A Notícia”, e, no Rio Grande do Norte, a maioria ilustrou as páginas do jornal “A República”.
Sabe-se que Henrique Castriciano foi convidado por Pedro Velho, em 1891, ou seja, aos 17 anos, para escrever em “A República”. O trabalho mais remoto a figurar na pesquisa do Professor José Geraldo é de 1892, e o mais próximo no tempo é de 1938, ambos publicados naquele jornal. Por mais de uma vez, o autor/organizador dos três volumes desta Seleta-Textos e Poesias transmitiu-me sua convicção de que existem prosa e poesia da lavra de H. Castriciano ainda não redescobertos, que devem ser procuradas nos arquivos de jornais e revistas do Rio de Janeiro das primeiras décadas do século passado, além de outras fontes.
Agora, a Liga de Ensino do Rio Grande do Norte, por decisão do atual presidente, Manoel de Medeiros Brito, resolveu reunir em um só livro os três volumes que contemplam os 228 trabalhos escritos por Henrique Castriciano e coligidos por José Geraldo de Albuquerque. A publicação, com o selo da editora Sebo Vermelho, faz parte das celebrações – julho de 2011 – do 1º Centenário da Liga de Ensino do RN. Trata-se de louvável iniciativa, porquanto reúne grande parte da produção intelectual de um dos maiores escritores do Rio Grande do Norte, em todos os tempos. Os leitores irão encontrar expressiva poesia – romântica, parnasiana e simbolista –, a qual teve alguns poemas traduzidos no estrangeiro e presentes em antologias nacionais e internacionais, bem assim uma prosa de qualidade superior, com refinado estilo para transmitir ideias de uma pessoa voltada aos valores do espírito, profundamente culta e sensível. Câmara Cascudo, em seu livro biográfico Nosso Amigo Castriciano, assim se expressa: “O estilo de Henrique, na prosa alheia ao romance é claro, mantém-se ágil, de uma precisão segura, com uma elegância, vivenciada, coloridos insuperáveis”.
Nos três volumes de prosa e poesia de H. Castriciano, lançados anteriormente, é mantida a ortografia original usada pelo autor. Desta feita, a opção foi transmudar para a forma ditada pelo atual acordo ortográfico dos países lusófonos, em vigor no Brasil desde 2009, à guisa de tornar a leitura mais fluente. Esta obra encerra um tesouro da produção literária norte-rio-grandense. Apenas para citar algumas peças, vejam-se as nove crônicas sobre a vida e a verve do poeta Lourival Açucena – que se desdobraram no livro “Versos” (1927 e 1986), de C. Cascudo – , os poemas “A Estátua” e “O Mar”, ou a conferência “Educação da Mulher”, pronunciada na sessão solene de instalação da Liga de Ensino do Rio Grande do Norte, em 23 de julho de 1911. Três anos depois, em 1914, a Liga de Ensino criou a Escola Doméstica de Natal, que se transformou, mesmo erguida de tijolo, de cal e de concreto, no principal poema de Henrique Castriciano.

Henrique Castriciano. Um homem de idéias



Henrique Castriciano não foi apenas o intelectual mais culto de sua época, um scholar, naqueles anos da transição entre o século dezenove e as primeiras décadas do século vinte. Foi o olhar mais moderno a ferir a quietude pachorrenta deste vale branco entre coqueiros, para repetir o poeta Ferreira Itajubá. Homem de espírito e de gênio, inaugurador entre nós das grandes viagens e das descobertas de outros mundos, foi uma pedra a quebrar, com idéias novas, a vidraça da velha estética provinciana.
As novidades naquele começo de século vinte chegavam a Natal vindas do Rio, corte política e literária. As conferências, com a palavra lançada em voz alta, encantavam as platéias e serviam para arrecadar fundos em benefício de obras sociais. Ainda em 193O, Eloy de Souza fez a conferência ‘Alma e Poesia do Litoral’, com a renda em benefício da construção da Igreja de Santa Terezinha.
As conferências reverberavam nas vozes célebres de Joaquim Nabuco, Olavo Bilac, Medeiros e Albuquerque e Oliveira Lima. E o reflexo se ouviu nas conferências de Eloy de Souza e Manuel Dantas, em 1909, com suas visões pioneiras na valorização da vida quotidiana e na projeção de uma Natal que só a antevisão mágica de um Manuel Dantas seria capaz de imaginar a seu tempo.
É nesse ambiente que Henrique Castriciano, depois de uma longa viagem à Europa em busca de curar os pulmões cavernosos e saciar a fome do espírito, retorna à sua vila trazendo na bagagem um instante vivido numa barca quando fazia a travessia do Lago Leman, de Genebra para Lausanne.
Ele descreve num estilo primoroso, com literariedade de grande escritor, os contrafortes de sua pobreza feita de botinas de couro de bezerro e o requinte abusado de um casal de brasileiros vestido a rigor. Na mão do moço, Henrique sentiu a aristocracia bacharelesca de um magnífico anel - ‘deve ser um doutor em qualquer coisa’. Mas, a ela, seu olhar de poeta sensual não negou a formosura e confessou aos que lhe ouviam, há um século: ‘A moça, de olhos garços e tez branca, formosíssima, tinha o ar macilento das reclusas, a beleza mórbida das mulheres fatais’.
Aquele homem de pele escura, jeito rude, feições grossas, poliglota e leitor dos clássicos, poeta e prosador, voltou seus olhos míopes para o livro que levava nas mãos e só desviou a atenção quando um grupo de moças embarcou no cais de Coppet. Ele conta: ‘A barca estacionou um instante em Coppet, onde com a mais viva alegria entraram diversas educandas, acompanhadas das professoras, em respeitosa camaradagem, sorrindo ao sol de outubro, excepcionalmente belo naquele dia, derramando também seu riso de luz no lago tranquilo e nos Alpes gelados’.
Henrique descreve as roupas simples e discretas das estudantes, suas pesadas bolsas a tiracolo, como se viessem das aulas. Numa dúvida irônica, anota quando uma delas senta ao lado da brasileira formosa que lhe hostilizara com o olhar: ‘Talvez porque lhe fizesse mal aos nervos o ruído do lápis anotador, talvez porque lhe magoassem a vista o grosso vestuário da jovem’. Começava a nascer ali o sonho de fundar a Escola Doméstica. Eram as alunas da escola suíça que seria modelo do seu sonho.
Ao longo da conferência ‘Educação da Mulher’, lida no salão de honra do Natal Club, em 23 de julho de 1911, há um século, diante do governador Alberto Maranhão e de figuras como Meira e Sá, José Augusto, Manuel Dantas, Juvenal Lamartine e Fabrício Maranhão, entre outros, instalava-se a Liga de Ensino que tornaria possível realizar aquele sonho de criar a Escola Doméstica.
Henrique usa a expressão feminismo, tão moderna há um século, como uma exacerbação desnecessária à educação feminina, mas alerta para o erro de limitar a mulher ‘exclusivamente à vida do lar, como um egoísmo do homem’. Ao encerrar sua fala, proclama a modernidade de sua visão, há cem anos, como se falasse às autoridades de hoje: ‘Para ser grande esse povo, só falta educação’.
Quando fechou os olhos para sempre, na manhã de 26 de julho de 1947, há 64 anos, num leito da Policlínica, onde agonizara vários dias, Edgar Barbosa escreveu diante do morto ilustre:
‘Talentoso e humilde, esbanjou como um príncipe de Golconda, numa aldeia de vaqueiros e pescadores, o seu amor e a sua fortuna’.
Esta conferência que a Liga de Ensino devolve aos olhos um século depois, revela toda a grandeza de visão de Henrique Castriciano de Souza, uma usina de idéias luminosas.

Natal, 2011, nos cem anos da Liga de Ensino.

Vicente Serejo