
E Nazaré me contava que Carlos Eduardo, mesmo quando prefeito, visitava o Beco da Lama. Naquela época, o apurado do bar era 50% maior. Isso porque ela colocava cadeiras e mesas em uma calçada de pouco movimento, de boemia tradicional. Nunca ninguém reclamou. Era local disputado pela melhor ventilação. Hoje, todo mundo bebe e come entocado no bar, com medo da fiscalização.
Peço desculpa ao leitor se não explicitei quem é Nazaré. Ela dá nome ao bar mais frequentado do Beco da Lama. É cumadre de Neide, do Bar da Meladinha, fechado na última quinta-feira pela insensatez municipal. O argumento jurídico-administrativo-burocrático-idiota é de que falta licença para funcionamento. Como se a boemia precisasse pedir licença para ancorar sua liberdade.
Por várias vezes elogiei a iniciativa, a credibilidade e o trabalho do produtor Marcelo Veni por aqui. Achei o máximo um cara conseguir produzir shows quase diários em um local morto e que clama – ou reclama – por segurança e movimento. Mas ele conseguiu. E sem o apoio do poder público. Talvez por isso vinha dando certo, trazendo gente ao abandonado Beco.
Mas o município precisa dar o ar da graça. Micarla precisa ser notícia, sempre. E resolve atrapalhar. Fechou o bar. Proibiu o evento. “Ora, se nós não conseguimos fazer um São João de alguns dias e pagar os cachês dos artistas, vocês vão fazer um mês de shows e sair impunes?”. Não pode. E o Centro Histórico, agora, tem mais essa para os causos de mesa de bar; entrou para os anais do Beco.
Hoje, o nome de Micarla é alardeado aos quatro ventos do Beco. O Beco, que não se engane pelo tamanho e provincianismo de seus frequentadores. Aquele Beco é a maior avenida do Brasil, quiça, do mundo. Lá moram as bocas malditas da cidade e a liberdade universal. E pergunto, então, ao amigo leitor: há coisa maior do que isso, cumpade?
BECO DA LAMA
Sobre a foto de muitos anos, amarelecida, desvendo passos e lembranças. O velho Beco da Lama, que eu também poderia cantar num dístico cheio de elipses mentais. A foto tem dez anos. Eu passava ali, repórter de um jornal. Amigos simples descobriam a cabeça, tirando o chapéu. Invariavelmente, meus amigos do Beco usavam chapéu. Chapéu de feltro, chapéu de pano, chapéu de palha, como havia chapéu para ser tirado à passagem do pobre repórter.
No bolso, pouco dinheiro. Mas havia riso na alma. Contava as notas e via que dava para comer um bife de fígado no “Restaurante Pérola”, onde comi os melhores bifes de fígado de toda a minha vida. Eram espessos, generosos, sangrentos e acebolados. E o garçom caprichava comigo, de quebra, uma enorme cebola extra deitada em um prato e dois vidros de pimenta: um de molho inglês, outro de malagueta. (Agora, lembro que, quando eu era menino, ouvia lá em casa os mais velhos chamarem o molho inglês de molho vegetal, e eu fiquei com uma curiosidade incrível para conhecer o mineral e o animal, até hoje...)
No Beco, encontrava Seu Pedro, o tanoeiro, mestre na arte de fazer bicas. Gordo, usava umas camisas enormes que pareciam verdadeiras bandeiras a envolver-lhe o corpo. Quando me via, abria o rosto num riso como sua alma e eu sabia que era hora de tomarmos uma meladinha no boteco de Nasi. Mestre Nasi, descendente de árabe, narigão a despencar-se sobre o rosto, era o dono das melhores meladinhas do Beco. Senão da cidade inteira. Caninha, mel de abelha e dois pingos de limão. Havia sempre para tira-gosto um caldo de feijão de alegrar os corações mais duros, ou uns miúdos de galinha que eram a graça da casa.
Até o mestre Nasi mudou-se do Beco. Esse Beco que, nas quebradas da noite, ficava soturno como uma alma penada, três ou quatro lâmpadas, soltas aqui ou ali, a iluminar a sua solidão. Era a noite dos bêbados trôpegos e das mulheres errantes. Na foto de 1968, o poste que não existe mais, com o velho abajur de ágata a guardar uma lâmpada cheia de enigmas. E parece que ouço o vento, solitário vento, correndo por ali, para desfazer-se num sopro só, lá adiante, na Rua Ulisses Caldas. Beco da Lama, nunca te louvaram, te louvo agora na lembrança que essa velha foto desvenda.
Berilo Wanderlei
Grande Berilo! Viu mais coisas de encantamentos e emoções no Beco da Lama, que o Gabriel Garcia Marques no seu "Memorias de minhas putas tristes". Benza Deus! Que sujeito mais bem dotado na escrita!
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