sexta-feira, 5 de março de 2010

VEM AÍ O NOVO LIVRO DE IRACEMA MACEDO, COM POEMAS INÉDITOS E SELEÇÃO DE POEMAS ENTRE 2000 E 2002




Abaixo textos de Affonso Romano de Sant'anna e Nei Leando de Castro sobre a Poesia de Iracema.

Um pouco de poesia

Affonso Romano de Sant'Anna

Há poemas montados como ladrilhos
sem vida e há aqueles que fluem

Posto que o nome deste suplemento é Prosa e Verso, hoje é dia mais de poesia do que de prosa. E gostaria que vocês lessem simplesmente alguns poemas sem qualquer comentário. Mas para que nos acostumemos aos poucos, e de novo, com a poesia assim exposta, introdutoriamente direi duas ou três coisas.
Outro dia recebi um livro de uma poeta de Natal, Iracema Macedo. Não quis ler a orelha. Livro, às vezes, é melhor assim, sobretudo o de poesia, você abre logo lá dentro e sente num único verso, num único poema, se a criatura tem poesia na veia ou se aprendeu a fazer poesia, ou nem isso. Então, eu nem sabia que Iracema, que tem lá uns trinta anos, era moça letradíssima, tinha até feito a dissertação de mestrado – “Idealismo e amor fati na estética de Nietzsche.” E levei um baque logo no primeiro poema:

AS VESTES

“Enfrentei furacões com meus vestidos claros
Quem me vê por aí com esses vestidos
estampados
não imagina as grades, os muros
o chão de cimento que eles tornaram leves
Não se imagina a escuridão
que esses vestidos cobrem
e dentro da escuridão os incêndios que retornam
cada vez que me dispo
cada vez que a nudez me liberta dos seus laços ”

Há poemas, há poetas nos quais a gente sente que estão trabalhando com ladrilhos. Vão colando palavras dificultosamente, numa montagem inteligente, apurada, ao final da qual a gente diz: “É, está bem feito, mas falta vida”. Tanto Mário de Andrade quanto Nelson Rodrigues já diziam que a “inteligência” tem estragado a obra de muitos autores. O próprio Mário, às vezes, foi vítima disto.
Diferentemente, há poemas, há poetas que não guaguejam, mas cujo texto flui e nos conduz. É que nesses casos a poesia está soprando do imponderável. E, às vezes, a coisa pode ser tocantemente simples como nos versos de Iracema:

DANDARA

“Eu só acreditava em Drummond:
‘o amor chega tarde’
Não conhecia o amor que fulgura sem aviso
esse que se sabe proibido
o amor que já se sabe perdido desde o início
Eu não acreditava no impossível
vinha tão sóbria, tão cheia de medidas
não conhecia o esplendor da queda
nem a violência dos abismos”

Anotem. Não estou fazendo crítica literária. Estou lendo poemas com vocês. Estou lendo socialmente alguns poemas de uma poeta que ninguém conhece, a não ser a tribo dos potiguaras, lá no Rio Grande do Norte. E ao publicá-la aqui estou erguendo um monumento ao poeta desconhecido. Seu livro “Lance de dardos”, que reúne quatro opúsculos publicados desde 1991, vocês não o vão achar em livraria, porque o sistema, quer dizer, não é sistema, sistema é outra coisa, melhor dizer o esquema literário é perverso e nem sempre premia os melhores. Mas não é por isto que não vou citar essa Iracema, que nem conheço e que adoçou meus lábios com poesia.
Outro dia Nei Leandro de Castro, um dos caciques da tribo poética dos potiguaras mandou-me seu bom “Diário íntimo da palavra”. Ele que, entre outras publicações, tem um insólito livro de poesia erótica( “Era uma vez Eros”), enviou-me livros de outros bons poetas lá de Natal. Lembrei-me de outra colônia de bons poetas, lá em Aracaju, que Alberto de Carvalho apresentou-me no CD “A voz, o poema”.
Não, não vou citar nomes de poetas marginalizados. Isto já seria outra crônica.
Outro dia adverti numa entrevista, quando me perguntaram sobre essas três antologias de cem poemas/poetas do século XX, que se deveria fazer uma quarta antologia com o nome de muitos como Iracema. Seria o obelisco ao bom poeta desconhecido.
Não sei se ela vai desenvolver o projeto de uma obra poética. Estou apenas pinçando a poesia que sobrenada nesse arquipélago cultural cheio de ilhas de si mesmas exiladas. Poesia que dá prazer de ler.
E, para terminar, fiquemos de novo com a poesia de Iracema:


POEMA DO LOBO DO MAR

“Como proteger-me desse lobo que vem vindo
Em que ilhas poderei me ocultar
em que barcos ousarei fugir
desse lobo que domina os barcos e as ilhas?

Reúno roupas negras faca escudo
De que adianta enfrentá-lo do meu jeito
se ele me despe do jeito que ele quer?

Como proteger-me dessas ondas
de prazer que ele traz em suas brisas
De que vale feri-lo com meus versos
De que vale me lançar ao mar

Se não há como esconder-me de mim mesma
do exílio que sinto quando fujo
da vontade que tenho de ficar?”

Jornal O Globo. Prosa e Verso, 14 de abril de 2001


Lance de Dardos: poesia e paixão

Nei Leandro de Castro

Os três livros anteriores de Iracema Macedo, todos de parceria com Eli Celso e André Vesne, já apontavam para a dimensão de sua poesia, para a beleza e a ousadia dos seus versos, com temas e palavras fortes, pouco usuais na poesia feminina que se escreve no país e, principalmente, na província. É provável que poemas como “Desencanto”, “Mêntruos”, “Clito” e “Arremedo” tenham melindrado leitores mais sensíveis ou os eternos moralistas de plantão. Mas o talento demonstrado por Iracema Macedo, desde Vale feliz (1991), está bem acima dessas susceptibilidades. Ela, antes de tudo, é uma guardiã que vela a paixão e a poesia como vela “as coisas da noite”, iluminada de sonho. Iracema ousa e alcança o que ousa, desde os seus vôos iniciais: “Ousarei com a vela ao vento/ e uma outra vela acesa dentro de mim.”
Na série que dá título ao livro surge com mais vigor e nitidez o arrebatamento amoroso que sempre esteve presente na poesia de Iracema. Nesses poemas parece ter havido uma sublimação do amor fati ( já lembrado por Nonato Gurgel na orelha do livro), ou seja, “o amor que diz sim e que faz de qualquer resultado dos dados uma possibilidade de vida mais bela e mais criadora”. Não por acaso, o amor fati é o tema da dissertação de mestrado que Iracema Macedo fez sobre Nietzsche.
Em Lance de dardos, esse amor vai ao encontro de um Saturno destronado e lançado à terra dos homens; depois se aproxima de Mercúrio, o alcoviteiro dos deuses, para apaziguar suas dores, ao experimentar o “esplendor da queda e a violência dos abismos.” Saturno se traveste de lobo-do-mar, de anjo, de lobo, e vem vindo, não adianta fugir ou se esconder. A bela poesia de Iracema registra: “Saturno me estende a mão e um cálice/ e é como se a vida chegasse/ silenciosa e indolor como os milagres.” Mais adiante, a poeta volta aos ritos saturnais, confessa que transgride tantas leis que já nem sente, para depois reafirmar o seu doce desvario amoroso: “Ah, Saturno, tu me brindas e me usas como queres nesta noite em que o terror está tão próximo do prazer e a beleza travestiu-se tanto de loucura”.
Saturno também pode ser um anjo decaído, um arcanjo louco, que aprendeu a incendiar os sentidos da poeta, que adivinha todos os seus desejos sob portas e vestidos. Por isso, só resta pedir “que me faças assim/ ínfima e sagrada/ muito mais pornográfica do que lírica/ muito mais profana do que tântrica/ muito mais vadia do que tua”.
O amor se esvai? O coração da poeta se cobre de nuvens sombrias, fica cheio de vespas e ela canta: “Um oceano inteiro não basta para calar no meu peito este murmúrio de tantas formas de ardor/ tantas formas de estar banida e só”. Segundo Oscar Wilde, condenado à prisão e à morte pelo amor, os corações foram feitos para ser despedaçados. Talvez valha acrescentar que os pedaços do coração se recompõem como as estrelas-do-mar. Depois de Saturno e seus sortilégios, depois de Mercúrio, que “acende espelhos e inventa silêncios”, o amor fati de Iracema Macedo se volta para o cotidiano dos mortais e sublima o amor imperfeito, num dos mais belos poemas do livro. A paixão está apaziguada, o corpo e a alma suportaram a “ventania dos diabos”, o desenlace vira enlace, o amor se veste de outras vestes. A poesia é a grande vitoriosa: “Quero o nosso amor a salvo mesmo que sejam vorazes os deuses que ousam matá-lo/ Quero nosso amor humano mesmo que eu tenha medo mesmo que seja frágil nosso amor de porcelana”. Na atual poesia brasileira não há registro de um equilíbrio tão perfeito entre paixão e expressão poética, construção de versos e reconstrução da alma sob aquele antigo e recorrente “fogo que arde sem doer”.

Tribuna do Norte, Natal -RN, 05 de Maio de 2000

Nei Leandro de Castro é escritor e publicitário.

4 comentários:

  1. Então, aguardamos ansiosos pela obra! abraço

    ResponderExcluir
  2. Abimael e Alexandre, que maravilha!!!só hoje vi que havia sido postado no blog uma ideia da capa e gostei muito dela, tá ótimo. Só tem um detalhe muito importante em relação ao meu nome: Iracema Macedo e não Iracema de Macêdo( não tem nem o "de" nem o circunflexo no Macedo. Enviei um e-mail agorinha para vocês,
    aguardo notícias
    Abraço
    Iracema Macedo

    ResponderExcluir
  3. OI IRACEMA...JA REVISEI EM TODO MATERIAL O MIOLO TBEM ESTA MUITO BONITO,,TENHO CTZA QUE VC VAI GOSTAR. ALEX

    ResponderExcluir
  4. Alexandre, que bom falar com vc.!!
    Gostei mesmo dessa ideia, acho que já fechamos a capa ! Desculpe-me escrever pelo blog mas estava ansiosa para me comunicar. Olha meu e-mail é macedoamerica@hotmail.com, vc. recebeu minha mensagem da semana passada em que eu ainda propunha um acréscimo de 7 inéditos ao miolo e uma outra msg em que, depois de ter visto a capa que você fez, proponho um outro inédito " Eros e psiquê" para a contracapa?
    Tomara que sim!!! Muito obrigada, em tempos pós-modernos a gente pode se comunicar assim mesmo mas aguardo seu endereço de e-mail oK?
    Abraço e gratidão
    Iracema

    ResponderExcluir