
Havia um quadro na parede.
Lembro que tinha um quadro na parede, “A Revoada do Pássaros”. Para meus pais, os presenteados, a forma sugeria antes uma caravela em pleno mar, do que pássaros em revoada. Não deixavam de ter razão.
Lembro que, certa época, Walter won Berbe ia à casa de minha infância todos os dias. Vejo-o, silencioso, no terraço, antes ou depois do almoço, com algum livro na mão.
Lembro de um festival de música. Lá estavam Os Berbes, lá estavam muitos, lá – no Palácio dos Esportes – estavam os anos 60, em Natal, a tal Londres nordestina, e eu, assistindo ao vivo ou recortando as letras publicadas em um jornal e ouvindo a final numa rádio que, acho, era a Poty.
Depois, ele saiu do DER. Depois, deixou de ir lá em casa. Depois, foi pro Rio de Janeiro. Depois, o quadro sumiu.
Lembro, mais adiante, quase todos os anos, ele vindo à província com seus cursos sobre macrobiótica, com a yoga, a meditação, com sua calma em Maracajaú.
Lembro, num quarto, bengalas, chapéus, baús, telas e outros objetos – artísticos ou não - que eram dele, e que, imagino, alguém guardava para envio futuro.
Lembro do livro Macrobiótica Zen, de Sakurazawa Nyoiti (George Ohsawa), aparecendo, não sei bem por que, entre os livros de meu pai. Assim como a coletânea Textos Budistas e Zen-Budistas, da Editora Cultrix e um belo volume com capa de couro da Obra Poética, em espanhol, de Rainer Maria Rilke.
E, então, “Quase Nada Para Escrever”, guardado como se fosse um tesouro, o quadro que é, o retrato que é, o tempo que é, o jovem que é, em forma de livro.
Agora, Berbe volta, direto de um país que não existe no mapa, editado pelo Sebo Vermelho, persistência e delicadeza de Abimael Silva, o barco no mar.
Francisco de Assis Varela Cavalcanti Filho
Opa! Fizemos uma resenha sobre este livro no blog Ligados FM - passa lá e dá uma olhada: http://migre.me/7x77v ;)
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